São Gonçalo do Gurgueia, Piauí

5 anos do caso que soterrou nascentes e deixou famílias sem água potável

Cinco seis anos após a avalanche de rejeitos provocados pelo rompimento de três bacias de contenção  do Complexo Solar São Gonçalo do Gurguéia, controlado pela multinacional Enel, famílias de extrativistas de várias localidades atingidas enfrentam fome, perda de renda e desassistência.

“O cenário em Buritizinho era o de um paraíso: araras de todas as cores circulavam pelo céu o tempo todo, além de papagaios, pássaros de várias espécies e todos os tipos de animais silvestres. Parecia o Pantanal selvagem”, conta Vanderley José Hahn, proprietário de uma área na localidade de Buritizinho, no município de São Gonçalo do Gurguéia (Piauí). A propriedade foi soterrada pela avalanche de água oriunda de três bacias de contenção de rejeitos do Complexo Solar São Gonçalo do Gurguéia, da multinacional Enel Green Power, em 2021. A água da comunidade foi contaminada e inúmeras nascentes foram aterradas.

O acidente transformou a vida de 190 famílias diretamente para sempre e de incontáveis outras que vivem a jusante do Rio Gurguéia, que sofreu impactos irreversíveis com o despejo de sedimentos. A principal fonte de renda da maioria das famílias atingidas vem do extrativismo do fruto do buriti, árvore que foi praticamente dizimada pela avalanche de rejeitos vinda do complexo solar.

A empresa firmou acordo com algumas famílias de extrativistas para pagar uma ajuda financeira de até R$ 3.500,00 mensais por um período de cinco anos. Os mais velhos receberam antes e os mais novos o prazo terminou em dezembro passado e o repasse foi suspenso imediatamente. O resultado, segundo Vanderley, que também é presidente da Associação dos Moradores de Buritizinho, foi a fome batendo à porta dos extrativistas, que não têm mais seus pés de buriti nem a assistência financeira.

“A empresa chegou a plantar mudas de buriti, mas não vingaram. O solo está morto, ácido, virou só areia”, diz Vanderley, criticando os acordos firmados. “As parcelas deveriam continuar até que os buritizeiros começassem a dar frutos, o que leva cerca de 30 anos após o plantio”, avalia.

Apesar dos severos problemas socioambientais enfrentados na região, a Justiça determinou, em 2024, que a Enel Green Power pague R$ 70 milhões por danos morais coletivos, além de R$ 50 mil para cada núcleo familiar atingido. Foi fixada ainda uma tutela de urgência obrigando a empresa a adotar medidas imediatas para conter o assoreamento e recuperar as áreas degradadas nos riachos e brejos.

De acordo com Vanderley, as poucas intervenções feitas pela empresa para conter o assoreamento foram insuficientes e nenhuma indenização foi paga até o momento. Ele relata o drama da maioria dos atingidos, que perderam a renda e precisaram deixar suas terras para sobreviver: “Eu sou um deles. Hoje moro em São Paulo, mas não abandonei São Gonçalo, apesar da decepção e das injustiças. Como eu são muitos que foram obrigados a irem embora”, comenta e diz lembrar que antes da chegada da Enel estava fechando acordo com uma empresa de captação de carbono tão alto era a conservação da biodiversidade em buritizinho.

A condução política da empresa e os acordos envolvendo gestores públicos, órgãos de fiscalização e o Poder Judiciário são alvo de fortes queixas no município. Na época do rompimento das bacias de contenção, o então prefeito de São Gonçalo não esteve no local para prestar solidariedade às famílias. Hoje, o município é comandado por sua sobrinha, Roselídia Lustosa, cassada pela Justiça Eleitoral por compra de votos.

O município possui cerca de 2,9 mil habitantes e recebe R$ 373,6 milhões em repasses e receitas fiscais, segundo dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE). “Apesar desse montante, a cidade não desenvolve”, aponta Vanderley. Dados do IBGE mostram que 62,02% da população de São Gonçalo do Gurguéia vive na extrema pobreza, embora o município abrigue uma das maiores usinas de energia solar das Américas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *