Desproporcional

27 dos 63 complexos são maiores que a área total dos municípios onde estão instalados

Dos 63 complexos analisados, 27 possuem área superior à área urbanizada do município onde estão instalados. Isso representa 42,9% do total, ou seja, quase um em cada dois complexos é maior que toda a área urbanizada da cidade de referência.

O caso mais extremo está no Piauí. O complexo São Gonçalo, em São Gonçalo do Gurguéia, possui 18,57 km², enquanto toda a área urbanizada do município soma apenas 0,48 km². Na prática, o complexo é 38,7 vezes maior que a área urbana da cidade. Em Caldeirão Grande do Piauí, a diferença também impressiona: o complexo tem 5,31 km², contra 0,43 km² de área urbanizada — uma extensão 12,4 vezes maior. Já o complexo Nova Olinda, em Ribeira do Piauí, tem 6,17 km², enquanto a área urbanizada do município é de apenas 1 km².

O fenômeno não está restrito ao Piauí. Na Bahia, o complexo Sol do Sertão, em Oliveira dos Brejinhos, ocupa 8,18 km², mais de 4,5 vezes os 1,80 km² de área urbanizada do município. No Rio Grande do Norte, o Monte Verde, instalado entre Pedro Avelino, Lajes e Jandaíra, alcança 7,39 km², contra 1,99 km² de área urbanizada considerada na tabela. Na Paraíba, o complexo Santa Luzia possui 7,18 km², enquanto a área urbanizada do município é de 2,30 km². Em Pernambuco, o Belmonte, em São José do Belmonte, ocupa 11,22 km², frente a 7,37 km² de área urbanizada.

Quando o recorte é feito por estado, o Piauí apresenta a maior proporção: 7 dos 10 complexos analisados, ou 70%, são maiores que a área urbanizada de seus respectivos municípios. No Rio Grande do Norte, são 4 de 7 (57,1%); na Paraíba, 3 de 6 (50%); em Pernambuco, 5 de 13 (38,5%); no Ceará, 4 de 13 (30,8%); e na Bahia, 4 de 14 (28,6%). O dado revela que a dimensão territorial dos empreendimentos pode ser desproporcional à própria escala urbana dos municípios que os recebem.

A comparação também ajuda a entender por que olhar apenas para a quantidade de usinas ou para sua potência instalada pode esconder a dimensão territorial da transição energética. São 63 complexos ocupando, juntos, 267,65 km² na tabela, enquanto a soma das áreas urbanizadas dos municípios considerados chega a 589,57 km². Mas essa distribuição é extremamente desigual: grandes extensões de terra destinadas à geração de energia aparecem em municípios cuja estrutura urbana é pequena. Em alguns deles, um único complexo supera várias vezes o espaço efetivamente urbanizado.

É justamente essa desproporção que dá outra dimensão ao avanço da energia solar no Nordeste. Para quem acompanha a expansão pelo número de megawatts, os empreendimentos aparecem como unidades de geração de eletricidade. Quando comparados ao tamanho das cidades, porém, eles passam a revelar outra escala: em quase metade dos casos, um único complexo solar ocupa uma área maior que toda a área urbanizada do município onde está instalado. A comparação não significa que o empreendimento ocupe fisicamente toda a cidade ou que toda a área do complexo corresponda a área desmatada, mas permite visualizar o tamanho da transformação territorial associada à expansão da geração solar de grande porte.

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