Dematamentos por monoculturas solares

Dois a cada três complexos solares de grande porte do Nordeste possuem alertas de desmatamento sobrepostos às suas áreas

O cruzamento dos dados dos 63 complexos solares de grande porte mapeados pela nossa reportagem no Nordeste com a base de alertas de desmatamento do MapBiomas Alerta revela uma sobreposição grave: 40 complexos possuem pelo menos um alerta de desmatamento incidindo sobre sua área. Isso significa que 63,5% dos complexos analisados apresentam algum registro de perda de vegetação nativa dentro de seus limites.

Os alertas utilizados na análise são do Map Biomas Alerta, que reúne informações de diferentes sistemas de detecção e submete os registros a processos de validação, refinamento e auditoria com imagens de satélite de alta resolução. O sistema identifica perdas de vegetação nativa e disponibiliza os polígonos refinados dos eventos de desmatamento. Assim, quando a nossa análise identifica a interseção entre um alerta e um complexo solar, estamos falando de uma área que o MapBiomas classificou como perda de vegetação nativa e que espacialmente coincide com a área do empreendimento.

Ao todo, os 125 registros de alerta que intersectam os 40 complexos somam 15.458,83 hectares de área desmatada. O número ajuda a dimensionar uma questão que fica escondida quando a transição energética é observada apenas pela quantidade de megawatts produzidos. Em alguns empreendimentos, a sobreposição é particularmente expressiva. O complexo Mendubim, em Assú (RN), aparece com 1.340,80 hectares de alertas; Belmonte, em São José do Belmonte (PE), com 1.090,81 hectares; Marangatu, em Brasileira (PI), com 982,15 hectares; São Gonçalo, no Piauí, com 944,66 hectares; e Futura, em Juazeiro (BA), com 862,52 hectares.

Apesar dos números anunciarem uma realidade grave, o cenário ainda pode ser agravado. Isso porque, os alertas de desmatamento do MapBiomas, em nenhum dos casos identificados, chegam ao tamanho real do complexos. No caso de São Gonçalo, por exemplo, o alerta foi de 944,66 hectares e a área total do Complexo é de 1.857,18 ha.

O Ceará possui o maior número de complexos com registros, 11, seguido por Bahia e Pernambuco, com sete cada, Piauí, com seis, Rio Grande do Norte, com cinco, e Paraíba, com quatro. O resultado mostra que a expansão da geração solar centralizada está acontecendo sobre territórios onde a vegetação nativa também está sendo perdida.

A energia solar é parte importante da resposta à crise climática. Substituir fontes fósseis por fontes renováveis é necessário. Mas os dados levantam uma pergunta que não pode ser ignorada: se uma transição criada para enfrentar a crise ambiental também avança sobre áreas de vegetação nativa, que tipo de transição está sendo construída? O problema não está na tecnologia solar em si, mas na forma como grandes projetos são implantados e na escolha dos territórios que recebem seus custos ambientais. Quando a expansão energética transforma áreas naturais em grandes empreendimentos, a redução das emissões de carbono em escala nacional pode vir acompanhada de impactos ambientais concentrados justamente nas comunidades que vivem nesses territórios.

O cruzamento revela um dado impossível de ignorar: em quase dois terços dos grandes complexos solares analisados, há registros de perda de vegetação nativa sobrepostos às áreas dos empreendimentos. É nessa contradição que a discussão sobre uma transição energética justa precisa avançar: não basta produzir energia renovável. É preciso perguntar onde, como e a que custo ambiental e social ela está sendo produzida.

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