Rio Grande do Norte
Quando a Caatinga desaparece da janela

Os números ajudam a medir a velocidade da expansão da energia solar. Mas é na comunidade de Pingos, zona rural de Assú, no Rio Grande do Norte, que eles ganham rosto. O município está entre os dez que mais perderam áreas de Caatinga para a instalação de usinas fotovoltaicas no Brasil. Entre 2016 e 2024, foram 1.701 hectares do bioma convertidos para empreendimentos solares. No mesmo período, a área ocupada por usinas no Semiárido potiguar saltou de 2,32 hectares para 3.552,49 hectares, colocando o estado entre os que mais transformaram a paisagem da Caatinga para atender à expansão da geração de energia.
Em todo o país, o bioma já concentra 62% das áreas ocupadas por usinas fotovoltaicas, o equivalente a 21,8 mil hectares. De acordo com o MapBiomas, os estados de Minas Gerais, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte respondem, juntos, por quase três quartos dessa ocupação.
Em Assú, a vida na comunidade Pingos mudou radicalmente em 2025, quando o Conjunto Fotovoltaico Assú Sol, atualmente o maior empreendimento solar da ENGIE em funcionamento no mundo, teve suas obras iniciadas. A ENGIE é uma multinacional francesa do setor de energia, considerada uma das maiores empresas de infraestrutura energética do mundo. O grupo atua em mais de 30 países e, no Brasil, a empresa está presente há cerca de 28 anos e é um dos principais agentes privados do setor elétrico.
Implantado em uma área de 2.344 hectares, o complexo reúne mais de 1,5 milhão de módulos fotovoltaicos, possui 895 MWp de capacidade instalada e energia suficiente para abastecer uma cidade de aproximadamente 850 mil habitantes. Para sua implantação, foram construídos ainda 53 quilômetros de vias internas, além da infraestrutura de transmissão necessária para conectar o empreendimento ao Sistema Interligado Nacional.
Foi nessa transformação que a agricultora Maria Sonale Paula da Silva viu sua comunidade mudar. Moradora de Pingos há mais de duas décadas, ela lembra que a paisagem era marcada pela vegetação preservada, pelos cajueiros e pela agricultura familiar. “Era uma comunidade bastante agradável, rica em natureza. A maioria das famílias vivia da agricultura”, conta. A chegada da usina, segundo ela, aconteceu sem que sua família fosse efetivamente informada. Embora tenham ocorrido reuniões, os moradores diretamente afetados não participaram. “As informações que recebíamos eram sempre no ‘disse me disse’.”
Hoje, Sonale diz que basta abrir a porta de casa para perceber a mudança. “Tiraram nosso prazer de admirar como a comunidade era viva”, resume. Ela relata aumento da temperatura, queda da umidade do ar, poeira constante e uma paisagem antes ocupada pela Caatinga que foi substituída pelo que chama de “vegetação de ferro”. Com a supressão da vegetação, animais silvestres passaram a aparecer perto das residências em busca de abrigo e alimento. “Na semana passada encontramos tatus muito próximos de casa. Isso nunca foi normal para nós.”
Os impactos, afirma, vão além do ambiente. A perda dos cajueiros reduziu uma importante fonte de renda das famílias e afetou práticas que faziam parte da identidade da comunidade. Os conflitos também chegaram às relações entre vizinhos, diante da percepção de que benefícios e prejuízos foram distribuídos de forma desigual. “As pessoas diziam: ‘eu não vejo isso, mas eu vejo’. Criou discussões que antes não existiam.” Sem respostas permanentes às reclamações apresentadas à empresa responsável, Sonale diz que o maior medo hoje é outro: “Nós não temos mais esperança de que o lugar volte a ser o que era. O nosso bem-estar físico e mental foi afetado, e isso ninguém consegue compensar.”