Piauí
A cidade que pretende instalar placas solares em 20% do seu território

“Minha filha falou dessas placas, mas eu não sabia. Até agora não estou acreditando que seja verdade.”
A frase de Francisca Carvalho Oliveira, moradora da comunidade Sítio dos Queiroz, resume o sentimento que atravessa parte da zona rural de Bom Princípio do Piauí, município localizado a 307 quilômetros de Teresina. O que ela descobriu pela própria filha foi a previsão de implantação de um complexo de energia solar que deverá ocupar mais de 3 mil hectares e alcançar áreas próximas às comunidades de Marruás, Lagoa Escura, Sítio dos Queiroz, Jenipapo, Nova Iorque e Baixão.
Embora a Licença Prévia já tenha sido emitida e o processo de licenciamento siga em andamento, moradores afirmam que nunca foram consultados sobre os impactos do empreendimento nem receberam informações suficientes para compreender como suas vidas poderão ser afetadas. A empresa informa que realizou uma audiência pública em 2023, mas os relatos ouvidos pela reportagem indicam que muitas famílias diretamente atingidas permaneceram fora desse processo.

O complexo faz parte de uma transformação muito maior. Levantamento da Rede Ambiental do Piauí (REAPI) aponta que Bom Princípio possui ao menos 12 projetos de usinas solares previstos, que, juntos, deverão ocupar mais de 10 mil hectares, ou seja, cerca de 20% de todo o território do município. Se todos forem implantados, extensas áreas hoje ocupadas por vegetação nativa, pequenas propriedades rurais e espaços utilizados pela agricultura familiar darão lugar a grandes parques fotovoltaicos.
Para moradores como Francisca e Natália, da comunidade Nova Iorque, o impacto começou antes mesmo das máquinas chegarem. “A gente vive da roça, cria os animais e tem medo do que pode acontecer. Ninguém veio explicar nada pra gente”, resume Natália.
Para a gestão municipal, no entanto, a expansão representa uma oportunidade inédita de desenvolvimento econômico. Segundo dados do Tribunal de Contas do Estado, Bom Princípio arrecadou cerca de R$ 35 milhões em 2024 e deve ultrapassar R$ 46 milhões em 2025. O prefeito Apolinário Costa Moraes afirma que os empreendimentos previstos somam aproximadamente R$ 92 bilhões em investimentos e já modificam a dinâmica econômica do município. Segundo ele, pelo menos sete proprietários rurais arrendaram suas terras para empresas nacionais e estrangeiras e recebem entre R$ 100 mil e R$ 300 mil por mês, transformando o arrendamento em uma nova fonte de renda.
É justamente nessa sobreposição de interesses que se instala o conflito. Enquanto o poder público enxerga uma oportunidade de crescimento econômico e parte dos proprietários de terra celebra contratos milionários, comunidades vizinhas convivem com a incerteza sobre o futuro de suas casas, de suas roças e de seus modos de vida. Bom Princípio tornou-se um retrato das contradições que acompanham a expansão da energia solar no Nordeste: um mercado bilionário impulsionado pela transição energética, mas que, segundo moradores, ainda avança mais rápido do que o diálogo com quem vive nos territórios destinados a receber esses empreendimentos.