Complexo Solar na cidade de brasileira, Piauí
Comunidade Jabuti, o espelho do caos

>> Texto: Luan Matheus Santana
A comunidade Jabuti é um daqueles lugares pacatos, de vida tranquila. A roça, o pasto, o som dos animais, o cheiro de terra molhada nos dias de chuva. Esse era o lugar dos sonhos do seu Osmar Pereira, um trabalhador aposentado que chegou nessa região no ano de 2008. “Isso aqui não tinha nenhum plantio, nem nada. Eu fui plantando assim e cultivando. Hoje tenho essa propriedade dessa maneira aqui, que realmente, em termos de propriedade, eu realizei meu sonho, né?”, afirmou Osmar.
E estava tudo certo, até as primeiras chuvas do inverno de 2024 começarem a cair. “Era isso que eu queria, ter uma casa para a minha velhice, com muita planta em roda e tal. Preparei para isso. Só que esse sonho tá se destruindo”, conta seu Osmar. Quando ele se mudou para o Jabuti, nem imaginava que a comunidade seria impactada pelas obras de um dos maiores empreendimentos de energia renovável do Piauí: um complexo solar com capacidade para abastecer mais de meio milhão de casas.
Foram meses de máquinas rasgando o chão, cortando árvores, abrindo espaço para mais de um milhão de placas solares em quase 2 mil hectares de terra. Para essa mudança radical, não houve consulta. Nenhuma reunião foi marcada. Nenhum aviso sequer foi deixado nas casas da comunidade. Quando chegou o primeiro inverno depois das obras foi quando a comunidade entendeu o tamanho do problema.
A água da chuva não tinha mais para onde correr. A drenagem não funcionou, canais naturais foram bloqueados, o solo perdeu a capacidade de absorção e as chuvas passaram a carregar a camada superficial da terra. Foi uma enxurrada que desceu direto para as casas. Arrastou cercas, destruiu plantações, soterrou açudes, abriu valas no meio das estradas.
“Com esse parque solar que veio aí, que construíram aqui perto e acabou com a gente, tem essas enchentes aí que passaram, destruíram nossa propriedade. Nossa propriedade está improdutiva, não serve mais, né? Porque todos os anos a água passa por dentro, criando uma lama que não serve mais para plantar de jeito nenhum. Nossos animais ficaram sem área para criar, né? Porque destruiu tudo onde a gente criava esses animais. E hoje tá aqui, a gente tá vivendo nessa situação”, afirmou Osmar.
Desanimado com o que vê hoje, seu Osmar carrega o medo do que ainda está por vir. “Nós não sabemos se, não só eu como os outros moradores vizinhos, a gente não sabe se amanhã a gente pode tá aqui ou não, né? Porque cada inverno que vem piora a situação, né? A gente não tem mais sossego, né?”, afirmou.
No dia em que conversamos, seu Osmar me recebeu na casa dele, junto com integrantes de um grupo de estudos independente que investiga os impactos das energias renováveis no Piauí (GETIER). Com a presença de outras famílias, no alpendre da casa, em roda, uma coisa ficou nítida: todo mundo tinha um pedaço da mesma história para compartilhar.
Mas o seu Osmar, naquele momento, era como uma exceção diante de tantas lamentações. Sorridente, ele não amenizava o sofrimento, mas parecia não se deixar abater por ele. Mas só parecia. Durante a gravação da entrevista, distante dos outros vizinhos, ele se deixou ver por dentro. Quando eu perguntei o que sentia ao ver o sonho de uma vida inteira sendo destruído, ele só conseguiu dizer: “É uma tristeza. Acabou”, afirmou, com os olhos cheios de lágrimas. Ele não conteve as lágrimas. Eu também não.
O pesadelo de Fábio
Se no relato de seu Osmar o que aparece é a dor de ver um sonho se desfazendo, a história que se revela a seguir mostra que o problema não é isolado. Ele atravessa toda a comunidade Jabuti, localizada em Brasileira, norte do Piauí, e muitas outras impactadas por grandes projetos de energias renováveis.
O discurso de empreendimentos renováveis costuma estar associado à sustentabilidade, redução de emissões de carbono e ao combate às mudanças climáticas. No entanto, ao pisar fundo no acelerador, o mercado das energias renováveis não atende apenas a uma demanda que é urgente e inquestionável: a da transição energética. Há ainda outro fator, tão importante quanto, que tem mobilizado diversas organizações da sociedade civil. Para eles, essa corrida tem privilegiado o lucro e negligenciado direitos humanos e socioambientais.
Na casa de frente à do seu Osmar mora Atônito Ximendes, ou como todo mundo conhece, o “Fábio”. Ele chegou ao Jabuti há vinte anos, depois de mais de uma década trabalhando como garçom em São Paulo, juntando dinheiro para comprar um pedaço de terra. “Trabalhei 13 anos e 6 meses em São Paulo, aí deu para comprar. Eu comprei e fui embora. O começo era bom demais, maravilha. Depois a empresa veio e abriu tudo”, afirmou.
Debaixo da sombra de um pé de caju, Fábio tentou contar a própria história. Ele fala baixo, sem encarar o lugar que conquistou com tanto esforço. Estávamos na frente da casa, mas ele preferiu ficar de costas, como quem evita olhar o que restou de um sonho.
“A enxurrada de água da empresa acabou com tudo. O poço eu tinha onde meus bichos derramavam, meus bichos derramavam todinho. A água veio, acabou. O barro passou por cima. A água é uma lama branca, não presta para nada. E dois açudes meus bichos bebiam, a água veio e arrebentou todos os dois, derrubou cercas de arame, derrubou tudo”, afirmou Fábio.
O complexo solar estava instalado, mas o sistema de drenagem não. Isso provocou o assoreamento de pequenos riachos e a perda de produtividade do solo, afetando diretamente a agricultura local. E o que a enxurrada levou da terra parece ter levado também de dentro do Fábio. “Rapaz, eu fiquei doidinho. Falta girar o juízo. Falta não dormir de noite, pensando”, conta o morador com um olhar vazio, de quem busca nos escombros uma vida que não existe mais.
“Foi uma vida toda que a gente trabalhou, né? E aí a enchente veio assim de uma vez. É triste demais”, conta Fábio. Entre o medo da água e a poeira que cobre tudo, existe um homem que não sabe mais nomear o próprio cansaço. Fala de paz como quem fala de um tempo distante.
Mas, apesar de tudo que foi destruído, tanto seu Osmar quanto Fábio ainda querem construir novos sonhos. “Rapaz, eu espero que eles arrumem a solução dessa… não descer mais para lá, a gente viver em paz, né? Deitar de noite e dormir em paz”, afirmou Fábio.
Uma dor compartilhada
A memória das enchentes ainda organiza o modo como seu Osmar e Fábio narram o que aconteceu na comunidade. Eles voltam àquela noite como quem tenta entender, até hoje, o que não foi avisado nem previsto: a surpresa, o barulho, a força da água rompendo o cotidiano. Foi ali, naquele momento inicial de susto e desorientação, que a dimensão do problema começou a se revelar. Mas os impactos vão além.
“O primeiro foi um impacto porque a gente não tinha noção do que pudesse acontecer. E aconteceu, né? Foi uma enchente braba, de noite. Isso aqui deu uma zoada, um monte de coisa vindo, a água quebrando tudo aí. E a gente ficou assombrado, sem saber, porque a gente não tinha o costume de ver aquele absurdo de água correndo”, afirmou Osmar.
Depois, vieram outros impactos. A poeira como uma presença constante e sufocante, que atravessa o cotidiano da comunidade e adoece quem ali vive. Segundo Fábio, a intensidade é tanta que chega a sensação de quem a poeira vai “matar todo mundo”. Os mais velhos e as crianças sofrem mais. O posto de saúde que atende a comunidade está cheio de pessoas com problemas respiratórios.
Seu Osmar chama atenção ainda para o aumento das temperaturas, que transformou a rotina dentro de casa em um desafio. Durante o inverno, ainda é possível algum alívio com as chuvas, mas no verão, especialmente entre agosto e outubro, o calor se torna insuportável. “É o ventilador ou o ar-condicionado ligado direto, porque ninguém aguenta. Quando o vento vem de lá, passa no parque solar e vem aquela ventania de lá pra cá, meu amigo, é um fogo entrando dentro de casa, sabe? A gente não suporta, não suporta. meio-dia aqui, quem tinha o costume de dormir meio-dia, acabou”, conta seu Osmar.
Fábio e Seu Osmar externaram um sentimento compartilhado com toda a comunidade. Mesmo os moradores que não foram atingidos diretamente pelas enchentes provocadas pelas obras do empreendimento, os impactos indiretos estão batendo na porta de toda a comunidade: poeira, adoecimento, barulho intenso e aumento de temperatura.
A origem do problema
Toda essa tragédia narrada por nossos dois entrevistados começou com a instalação do Complexo Solar Marangatu, um megaempreendimento com capacidade para gerar 446 megawatts de energia. Para você ter uma ideia, essa energia toda seria suficiente para abastecer mais de meio milhão de casas. Mas esse não é o caso. A energia do Marangatu não vai para quem mora no Jabuti. Aqui, ficaram os danos; os benefícios vão para as grandes empresas do setor industrial.
“Produtos feitos com eletricidade de base renovável. Então, começa com hidrogênio… você começa tendo as usinas renováveis, solar, eólica, hidrelétrica, e depois passa para fazer industrial, que é esse que tô falando tanto do hidrogênio”, afirmou Rafael Fonteles, governador do estado do Piauí (PT), em entrevista para a TV Assembleia, em julho de 2024, durante a inauguração do empreendimento. Na reportagem, o governo aparece explicando a destinação final da energia produzida no complexo solar.
No mesmo ano, o Ministério Público do Piauí começou a receber uma enxurrada de denúncias. Eram relatos de irregularidades no novo complexo de energia solar. Antes mesmo da inauguração, em abril de 2024, uma inspeção foi realizada. Técnicos do Ministério Público e da Secretaria de Meio Ambiente (Semarh) foram até o local. O que encontraram não foi pouco: erosões, assoreamentos e falhas graves no sistema de drenagem.
A investigação revelou ainda que a empresa responsável não seguiu normas básicas de segurança e saúde, previstas no Código de Defesa do Consumidor. E mais: deixou de repassar informações essenciais sobre os impactos do projeto para quem mais precisava saber: a população local. O reflexo disso tudo você já escutou aqui nas palavras do seu Osmar e do Fábio. Mas eles ainda não falaram tudo.
Depois da inspeção do Ministério Público, a empresa Marangatu Energias Renováveis assinou dois acordos para reparar os danos causados pelo complexo solar. O primeiro, um TAC, definiu ações como desassorear riachos, reflorestar matas ciliares, criar barreiras naturais e fazer a manutenção emergencial da estrada que liga a BR-222 à comunidade Saco dos Polidório, passando pelo Jabuti. Também determinou a realização de uma audiência pública para que a comunidade acompanhe as medidas e identifique novos impactos.
O segundo acordo, um termo de transação administrativa, previu o pagamento de mais de setecentos e cinquenta mil reais ao Fundo Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor. A primeira audiência pública aconteceu em fevereiro de 2025, para discutir os danos e as ações de mitigação do empreendimento.
Algumas medidas foram tomadas, mas, na prática, no cotidiano da vida da comunidade, pouca coisa mudou. A terra continua improdutiva; o calor parece aumentar a cada mês; a poeira continua adoecendo gestantes, crianças e idosos.