Piauí lidera potencial de área afetada

Nordeste pode ter 1.072 km² de território

afetado por novos projetos solares até 2032

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Base do Complexo Solar Marruas – Foto: Luan Matheus Santana

>> Texto: Luan Matheus Santana e João Paulo Centelha

Se o cenário projetado para os próximos anos se confirmar, a transformação da paisagem nordestina ainda está longe de atingir seu limite. Um levantamento elaborado pelo geógrafo João Paulo Centelhas, professor adjunto da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e integrante do Grupo de Trabalho e Estudo sobre os Impactos das Energias Renováveis (GETIER), estimou o potencial de ocupação territorial da próxima expansão da energia solar a partir dos empreendimentos acompanhados pela plataforma RALIE (Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica), da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). 

A metodologia parte de um cálculo simples: “utilizamos o total de área em hectares atualmente ocupadas por usinas solares centralizadas em operação (calculada pelo mapeamento realizado neste projeto) e dividimos pelo total de “potência fiscalizada/instalada” informado pelo SIGA (Sistema de Informações de Geração da ANEEL)”, explica o professor. Com isso, foi possível chegar a uma média de 2,3 hectares para cada megawatt (MW) de geração.

Aplicando esse coeficiente aos projetos previstos pela Aneel, o resultado impressiona. Até 2032, a região poderá incorporar 46.611 MW de nova capacidade instalada em usinas fotovoltaicas centralizadas. Caso todos esses empreendimentos saiam do papel, eles poderão ocupar cerca de 107.205 hectares, o equivalente a 1.072 quilômetros quadrados de território diretamente afetado. É uma área quase quatro vezes maior do que a ocupada pelas usinas atualmente em operação no Nordeste, que hoje somam 27.637 hectares.

Traduzido em imagens mais fáceis de visualizar, esse potencial de ocupação corresponde a aproximadamente 150 mil campos oficiais de futebol. Também representa uma área quase cinco vezes maior que todo o município de Recife, cuja extensão territorial é de cerca de 218 km². O número não significa que toda essa superfície será integralmente desmatada, mas indica a dimensão dos territórios que poderão sofrer intervenções diretas para instalação de painéis, abertura de acessos, implantação de subestações e demais estruturas necessárias ao funcionamento dos empreendimentos.

Entre os estados, o Piauí aparece com o maior potencial de área diretamente afetada, com 30.136 hectares, seguido pela Bahia, com 29.488 hectares, e pelo Ceará, com 19.200 hectares. Na sequência aparecem Rio Grande do Norte (14.855 ha), Paraíba (7.341 ha), Pernambuco (4.335 ha), Sergipe (1.610 ha) e Alagoas (236,9 ha). O levantamento considera apenas os projetos que possuem previsão de entrada em operação até 2032 e exclui outros 8.791 MW já outorgados pela Aneel, mas classificados como de baixa viabilidade e, por isso, ainda sem previsão de execução.

Para Centelhas, os números não representam uma previsão exata do desmatamento futuro, mas oferecem uma medida concreta da extensão territorial que poderá ser mobilizada caso a atual carteira de projetos seja efetivamente implantada. Em uma região que já concentra alguns dos maiores empreendimentos solares do país e onde comunidades denunciam conflitos fundiários e supressão de vegetação nativa, a estimativa ajuda a antecipar a escala dos desafios que acompanharão a próxima etapa da transição energética no Nordeste.

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