A expansão que já mudou o mapa do Nordeste
Nordeste concentra 311 usinas solares distribuídas por 63 complexos fotovoltaicos de grande porte
>> Texto: Luan Matheus Santana e Diogenes de Luna
O sol que transforma o Nordeste em uma das principais fronteiras da geração de energia renovável também vem redesenhando o território. O levantamento identificou 311 usinas solares distribuídas por 63 complexos fotovoltaicos de grande porte em seis estados da região: Bahia, Piauí, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco e Paraíba. Juntos, esses empreendimentos somam 11,61 gigawatts de potência outorgada e estão associados a uma área de 280,35 quilômetros quadrados.
É uma extensão equivalente a aproximadamente 28.035 hectares ou a quase 40 mil campos oficiais de futebol. O número ajuda a dimensionar fisicamente uma transformação que muitas vezes aparece apenas em megawatts, investimentos e promessas de desenvolvimento. Aqui, porém, a expansão pode ser vista no território: são centenas de empreendimentos concentrados principalmente em municípios do interior nordestino, onde a chegada das usinas altera a paisagem e disputa espaço com outros usos da terra.
A Bahia lidera o levantamento. São 78 usinas distribuídas por 14 complexos, que ocupam 66,60 km² e somam 2,72 gigawatts de potência outorgada. O estado é seguido pelo Piauí, com 63 usinas em dez complexos e 56,40 km² de área; pelo Rio Grande do Norte, com 48 usinas em sete complexos e 54,35 km²; e pelo Ceará, que reúne 62 usinas em 13 complexos e 53,13 km². Pernambuco aparece com 41 usinas em 13 complexos, ocupando 32,65 km², enquanto a Paraíba reúne 19 usinas em seis complexos, distribuídas por 17,21 km².
Os números também mostram que contar usinas não é suficiente para compreender o tamanho dessa transformação. O Ceará, por exemplo, possui 62 usinas, praticamente a mesma quantidade do Piauí, que tem 63, mas os dois estados apresentam diferenças na extensão territorial associada aos empreendimentos. O Rio Grande do Norte, por sua vez, possui apenas 48 usinas, mas ocupa a terceira maior área entre os estados analisados. Isso acontece porque uma mesma estrutura empresarial pode reunir várias usinas sob o nome de um único complexo ou conjunto fotovoltaico, fazendo com que a quantidade de empreendimentos e a dimensão territorial caminhem em ritmos diferentes.
Essa concentração fica ainda mais evidente quando se olha para alguns dos maiores complexos. No Piauí, o complexo São Gonçalo, em São Gonçalo do Gurguéia, reúne 18 usinas e possui 790 megawatts de potência outorgada. Na Bahia, o complexo Futura, em Juazeiro, concentra 22 usinas em operação. No Rio Grande do Norte, o Assú Sol reúne 16 usinas, enquanto o Mendubim soma outras 13. São exemplos de como a expansão solar não acontece apenas pela multiplicação de pequenas instalações, mas pela formação de grandes conjuntos capazes de concentrar dezenas de usinas em um mesmo território.
O mapa que surge desses dados é, portanto, também um mapa da concentração territorial da transição energética. Bahia, Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará respondem juntos pela maior parte da área mapeada, enquanto municípios específicos concentram extensões inteiras de empreendimentos. Em Juazeiro, na Bahia, são 22,71 km² associados a complexos solares; em Assú, no Rio Grande do Norte, 30,92 km²; e em São Gonçalo do Gurguéia, no Piauí, 18,57 km². São territórios onde a transição energética deixa de ser uma promessa distante e passa a ser uma mudança concreta na paisagem.
Nota metodológica: neste bloco, “área ocupada” corresponde aos dados do levantamento atualizado. O número de 280,35 km² não deve ser apresentado, isoladamente, como área desmatada. Para afirmar quanto dessa extensão corresponde efetivamente à supressão de vegetação nativa, precisamos utilizar a base específica de desmatamento/MapBiomas ou outra metodologia que faça essa identificação.