A transição energética é uma das principais respostas do mundo à crise climática. Reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e ampliar o uso de fontes renováveis deixou de ser apenas uma escolha e tornou-se uma necessidade. No Nordeste brasileiro, onde o sol e os ventos colocam a região entre as mais promissoras do planeta para a geração de energia limpa, essa transformação avança em ritmo acelerado. Mas, enquanto os indicadores apontam crescimento da capacidade instalada e bilhões de reais em investimentos, uma pergunta permanece pouco explorada: quem paga o preço dessa transição?
Foi para responder a essa pergunta que nasceu esta investigação, realizada pela Plataforma Ocorre Diário, em parceria com o Fundo Casa Socioambiental. Ao longo dos últimos meses, cruzamos dados geográficos, documentos públicos, bases da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), imagens de satélite, processos de licenciamento ambiental e trabalho de campo em comunidades diretamente afetadas pela expansão da energia solar. O objetivo foi mapear, de forma inédita, a dimensão territorial desse avanço e produzir conhecimento acessível sobre os impactos que permanecem invisíveis sob o discurso da energia limpa.
O levantamento identificou 311 usinas fotovoltaicas em 63 complexos de grande porte em funcionamento no Nordeste, distribuídas por Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Piauí e Paraíba, ocupando juntas 280,35 km². Também analisamos a expansão do setor ao longo da última década e constatamos que, entre 2015 e 2025, foram registrados 1.664 pedidos de instalação de usinas fotovoltaicas junto à Aneel, evidenciando o enorme interesse do mercado nacional e internacional pela região. Mais do que números, esses dados revelam como uma nova monocultura vem sendo instalada sob os solos do Nordeste.
E tem um outro lado dessa história que os números não alcançam. Em diferentes estados, comunidades rurais, povos tradicionais e agricultores familiares relatam ausência de consulta prévia, falta de acesso à informação, supressão de vegetação nativa, alterações no regime das águas, aumento da temperatura local, poeira, perda de áreas produtivas, conflitos fundiários e ameaças aos seus modos de vida. Ao longo da apuração, constatamos que esses relatos não representam casos isolados, mas padrões que se repetem em diferentes territórios, revelando as contradições de um modelo de transição energética que, em tese reduz emissões de carbono, mas na maioria das vezes, sem enfrentar as desigualdades históricas que marcam a ocupação do território nordestino e, além disso, gerando destruição ambiental nas localidades ondes esses empreendimentos são instalados.
Este especial não questiona a necessidade da transição energética. Pelo contrário, parte do reconhecimento de que ela é indispensável para enfrentar a crise climática. O que esta investigação coloca em debate é como essa transição vem sendo construída e quais interesses ela prioriza.
A expansão que já mudou o mapa do Nordeste
Entre 2015 e 2025
Piauí lidera potencial de área afetada
O cruzamento dos dados dos 63 complexos solares de grande porte mapeados pela nossa reportagem no Nordeste com a base de alertas de desmatamento do MapBiomas Alerta revela uma sobreposição grave: 40 complexos possuem pelo menos um alerta de desmatamento incidindo sobre sua área. Isso significa que 63,5% dos complexos analisados apresentam algum registro de perda de vegetação nativa dentro de seus limites. (Leia mais)
Possui 63 usinas solares em 10 complexos, ocupando uma área de 56,40 km²
Possui 62 usinas solares em 13 complexos, ocupando uma área de 53,13 km².
Possui 48 usinas solares em 7 complexos, ocupando uma área de 54,35 km².
Possui 19 usinas solares em 6 complexos, ocupando uma área de 17,21 km².
Possui 41 usinas solares em 13 complexos, ocupando uma área de 32,65 km².
Possui 78 usinas solares em 14 complexos, ocupando uma área de 66,60 km².
A comunidade Jabuti é um daqueles lugares pacatos, de vida tranquila. A roça, o pasto, o som dos animais, o cheiro de terra molhada nos dias de chuva. Esse era o lugar dos sonhos do seu Osmar Pereira, um trabalhador aposentado que chegou nessa região no ano de 2008. “Isso aqui não tinha nenhum plantio, nem nada. Eu fui plantando assim e cultivando. Hoje tenho essa propriedade dessa maneira aqui, que realmente, em termos de propriedade, eu realizei meu sonho, né?”, afirmou Osmar.
E estava tudo certo, até as primeiras chuvas do inverno de 2024 começarem a cair. “Era isso que eu queria, ter uma casa para a minha velhice, com muita planta em roda e tal. Preparei para isso. Só que esse sonho tá se destruindo”, conta seu Osmar. Quando ele se mudou para o Jabuti, nem imaginava que a comunidade seria impactada pelas obras de um dos maiores empreendimentos de energia renovável do Piauí: um complexo solar com capacidade para abastecer mais de meio milhão de casas.
Levantamento da Rede Ambiental do Piauí (REAPI) aponta que Bom Princípio, cidade localizada na planície litorânea do Piauí, possui ao menos 12 projetos de usinas solares previstos, que, juntos, deverão ocupar mais de 10 mil hectares, ou seja, cerca de 20% de todo o território do município. Se todos forem implantados, extensas áreas hoje ocupadas por vegetação nativa, pequenas propriedades rurais e espaços utilizados pela agricultura familiar darão lugar a grandes parques fotovoltaicos.
Os números ajudam a medir a velocidade da expansão da energia solar. Mas é na comunidade de Pingos, zona rural de Assú, no Rio Grande do Norte, que eles ganham rosto. O município está entre os dez que mais perderam áreas de Caatinga para a instalação de usinas fotovoltaicas no Brasil. Entre 2016 e 2024, foram 1.701 hectares do bioma convertidos para empreendimentos solares. No mesmo período, a área ocupada por usinas no Semiárido potiguar saltou de 2,32 hectares para 3.552,49 hectares, colocando o estado entre os que mais transformaram a paisagem da Caatinga para atender à expansão da geração de energia.
Em São Gonçalo do Gurguéia, no sul do Piauí, a chegada da energia solar transformou o horizonte e o cotidiano de comunidades rurais que vivem no entorno dos grandes empreendimentos. O município abriga o complexo fotovoltaico São Gonçalo, formado por dezenas de usinas que, juntas, se tornaram um dos maiores conjuntos de geração solar do Brasil. Há mais de cinco anos, moradores relatam que o transbordamento de estruturas de contenção provocou o deslocamento de grandes volumes de sedimentos. A lama e a areia atingiram nascentes, córregos, estradas, plantações e áreas utilizadas pelas famílias, alterando uma paisagem da qual agricultores dependiam para produzir e obter água.
Na parte da comunidade em que eu moro, o que mais sentimos o impacto da mudança foi na nossa vegetação, na nossa paisagem, que claramente foi retirada. Tirando nosso prazer de admirar como nossa comunidade era viva. Também sentimos o impacto na nossa temperatura, que aumentou significativamente, a qualidade do nosso ar, que nós temos a certeza que não é adequada mais.
Com esse parque solar que veio aí, que construíram aqui perto e acabou com a gente, tem essas enchentes aí que passou, destruiu nossa propriedade. Nossa propriedade tá improdutiva, não serve mais, né? Porque todos os anos a água passa dentro aí, acabando, criou uma lama que não serve mais pra plantar de jeito nenhum. Nossos animais... ficou sem área pra criar, né?
E eles fizeram os bueiros, aí tudo pra dentro, tudo pra dentro, mas a água saía dos bueiros que eles fizeram. Aí ela desce de lá pra cá e derruba arame, derruba tudo. Rapaz, eu fiquei doidinho. Falta girar o juízo. Falta não dormir de noite, pensando. Foi uma vida toda, a gente trabalha, né? E aí, encheu assim de uma vez. É triste demais.
“O cenário em Buritizinho era o de um paraíso: araras de todas as cores circulavam pelo céu o tempo todo, além de papagaios, pássaros de várias espécies e todos os tipos de animais silvestres. Parecia o Pantanal selvagem. A empresa chegou a plantar mudas de buriti, mas não vingaram. O solo está morto, ácido, virou só areia”
A transição que promete salvar o planeta deixa perguntas sem respostas pelo caminho
A história da comunidade Jabuti, Bom Princípio, Pingos e tantas outras não são, nem de longe, casos isolados. Eles ajudam a compreender um debate que hoje atravessa todo o planeta e que tem ocupado um espaço central nas negociações interacionais, em especial, nas Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. No centro desse debate está uma pergunta aparentemente simples, mas que ainda não encontra uma resposta consensual: afinal, existe um modelo de transição energética realmente justo sendo construído na região?